O Investidor Que Nada Sabe

…o dinheiro não cresce das árvores, sabem?

Category: Processo de Aprendizagem

4.A ESTRATÉGIA

Tinha reunido cerca de 7500€, o que para a média portuguesa pode ser considerado uma quantia aceitável, especialmente quando se tem uma jovem família para sustentar e acabou de se assistir ao corte do salário para menos de 1200€ por mês.

Como disse anteriormente, optei pela negociação de CFD sobre ações por causa da alavancagem que poderia obter, o que quer dizer que ficaria com cerca de 75 000€ de total de fundos para investir. Bem bom, hum?

Também estabeleci que o máximo que poderia perder era 750 € ou 10%, se preferirem, do meu capital incial. Esta regra foi a minha primeira e tentei que fosse a mais forte. Se atingisse essa perda iria para por uns meses para repensar a minha estratégia. Mas de certeza absoluta que tal não aconteceria.

O estilo de negociação com o qual estava mais familiarizado era o trend-following, porque era relativamente simples de eu perceber e de identificar as tendências. Até utilizei alguma programação rudimentar, baseada em médias móveis, que me indicava os pontos de entrada e de saída. E os testes indicavam lucros interessantes. Estava-me a tornar mesmo bom…

Estabeleci, também, que compraria 10 acções para ter alguma diversificação e mitigação do risco. Posições longas seriam 7 e curtas seriam 3, muito baseado na estratégia 130-30 portefólio, porque na altura tinha lido um estudo que era melhor forma de ter um bom retorno e menos risco.

 

Escolher Ações

Comecei a pesquisar as maiores empresas, as blue chips, perto de máximos, porque se estão em máximos existe uma grande probabilidade de valorizarem ainda mais. Em oposição, para abrir uma posição curta, procurava ações com tendência descendente e que faziam novos mínimos.

Pesquisava ações em movimento ascendente perto da média móvel de 50 dias para comprar e, para vender, ações abaixo da média móvel de 200 dias.

Até utilizava filtros para me dar listas completas de acções em situação semelhante.

A ideia era conseguir identificar as grandes tendências “à lá turtles”. Um plano muito simples de fácil compreensão e domínio.

Procurei, também, alguma diversificação geográfica, na medida que existem diferenças entre os ciclos económicos dos países, e assim, ao fazê-lo estava a reduzir o meu risco.

 

Gestão de Capital

A gestão de capital foi um dos principais aspectos da minha aprendizagem. Neste “jogo” acaba-se por perder invariavelmente dinheiro. Faz parte do jogo e à que saber aceitá-lo, mas perder todo o meu dinheiro e esforço de dois anos a poupá-lo era uma não opção. Seria um falhanço incrivel e a dor emocional seria devastadora, que provavelmente nunca mais olharia para o investimento em ações. Olhei, por isso, para a gestão de capital como a minha rede de segurança.

A minha gestão de capital seria muito simples, escolhera uma ação que reunisse os meus atributos pré-definidos e então identificaria um ponto mais baixo que a média móvel de 50 dias ou um novo mínimo mais alto que o anterior, numa tendência ascendente. Nesta zona colocaria o meu stop e tentaria comprar a ação o mais perto possível desta zona. A diferença entre a minha compra e o meu stop equivaleria entre 1% e 3% do meu capital total. Este era o dinheiro que estava disposto a perder num único trade. Isto implicaria pouco espaço para errar porque pararia de negociar se atingisse 10% de perda de capital.

Contudo, estava confiante que teria sucesso.

 

Piramidagem dos lucros

Por outro lado, estabeleci que se tivesse corretamente identificado uma tendência ascendente numa ação, aproveitaria as correcções do mercado para reforçar a posição, mas mantendo o mesmo risco. Deixar sempre correr os proveitos, como dizem os profissionais.

Isto é relativamente fácil de executar. Imaginemos que se comprou um ação e se arriscou 1% do total do capital. Passado uns meses, temos um lucro potencial de 20%. Entretanto a ação entra uma fase de correção e o preço cai 8%, mas não chega a fazer um preço abaixo do anterior mínimo (na zona onde se tinha estabelecido o stop), fazendo um mínino mais alto. Se retomar a tendência ascendente é sinal que o pior já passou e aí podemos mover o nosso stop para a nova zona do mínimo relativo. Isto significa que já não temos 1% do nosso capital em risco e que temos um trade positivo. Agora, podemos reforçar a posição e manter o mesmo risco inicial de 1%. A piramidagem é sem dúvida um bom potenciador de lucros.

SPY

Market Timing

Não cheguei a pensar muito neste aspecto. Hoje sei que é importante para uma boa estratégia. Na altura pensei que iria com a maralha, enquanto a tedência durasse.


Esta era a minha abordagem para retirar o meu quinhão dos mercados. Um plano simples porque a realidade é complicada e não vale a pena juntar-lhe mais camadas de complicação.

 

PTEN

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3. ANTES DO TRADING

Como disse anteriormente, tinha passado quase dois a nos a estudar análise técnica e como me comportantar em ambiente de trading. Nesse periodo, cruzei-me incessantemente com duas ideias-chave, gestão de capital e psicologia comportamental na negociação.

Li alguns artigos sobre gestão de capital e rapidamente percebi a sua importância. Todos traders usam-na e um bom sistema de negocição tem que tê-la. Porquê? Porque no trading, especialmente num processo de aprendizagem podemos realmente fazer muito mal ao nosso dinheiro. A gestão do capital é como o cinto de segurança, não conduzimos para nos espatifar mas é uma possibilidade quando se entra no carro.

Enquanto estudava, praticava numa conta de demostração e obtia retornos interessantes. Estava admirado constatar como era bom e como fazia dinheiro fácil e rápido, mas tentei manter-me humilde e recordava que era só uma conta demo.

Todos os traders, sobre os quais li, reforçam a ideia que são uma minoria os que têm sucesso, como é complicado desenvolver um sistema que nos dê alguma vantagem e como é importante manter o equilíbrio entre ganhar e perder. Não se deve ter confiança em excesso quando se ganha e não se deve ficar completamente devastados quando se perde dinheiro.

Li sobre isso em fóruns. E apesar de tentar manter-me humilde, algumas vezes interrogava-me como alguns tolos conseguiam fazer dinheiro, com os seus egos altamente inflamados e incapazes de mudar de opinião. Pensava se estes conseguem, melhor conseguirei eu. Mas conseguiram pessoas extremamente egocêntricas e inflexivéis ganhar consistemente nos mercados? Certamente, uma pequena minoria até porque na internet podemos dizer e ser aquilo que bem quisermos.

Comparativamente a outros eu parecia mais focado, mais interessado em aprender e, muito importante, mais humilde, o que me levou a crer que estava mentalmente capacitado para me iniciar no trading. E a verdade crua e nua é que é preciso estar focado, sempre ávido por aprender e continuar humilde se se quiser ter sucesso nos mercados.

 

PTEN

2.O PORQUÊ DO TRADING?

O porquê do trading? Bem, penso que seja tudo por minha causa. Num mundo em que desde o primeiro dia dizem-nos o que fazer e como o fazer, o trading é extremamente apelativo porque somos nós, individualmente, que temos os poder de decisão, quando comprar, quando vender, quanto se quer investir e quais as ações a comprar. Liberdade é a palavra. Trading é liberdade e fazer disso vida soa a ganhar o jackpot do euromilhões.

Se no meu dia a dia no trabalho algo corre mal, eu posso atribuir a responsabilidade aos meus colegas, de como o meu chefe decidiu e mesmo de como a instituição está organizada. No trading as nossas decisões são nossa responsabilidade, estamos sós. Assume o lucro ou irás perde-lo. Não há desculpa a partilhar. Isso soa-me maravilhosamente ao meu ouvido. Ter uma atividade em que posso provar que sou bom em alguma coisa, sem intreferência de terceiros, onde sorte ou conhecer as pessoas certas não interessa, é uma atividade em que quero estar envolvido. As únicas preocupações é estudar muito, manter-me focado e curioso, e permanecer humilde…pelo menos era o que inicialmente pensava.

De qualquer forma, tinha a certeza que seria bem sucedido. Afinal não sou tipo normal (mas isso é o que todas as pessoas pensam de si mesmas).

Mas consegue um ser humano lidar com liberdade ilimitada?

 

 PTEN

1.VERDES ANOS

Em 2010 estava à espera do meu segundo filho e comecei a interrogar-me como poderia melhorar o rendimento familiar. Não porque o meu rendimento não fosse suficiente, mas porque que queria garantir um futuro familiar sem sobressaltos, onde eu, a minha mulher e os meus filhos tivessemos muitas possibilidades de escolha na decisão dos grandes dilemas familiares, como “devem os miúdos estudar no estrangeiro?” ou “devemos mudar-nos para uma casa maior?” ou ainda “Estarei a poupar o suficiente para a reforma?”. E para se ter um leque alargado de opções, certamente que o dinheiro ajuda.

Então lembrei-me de uma paixão antiga que era investir em ações. Quando tinha pouco mais de 20 anos investi parte dos meus primeiros ordenados em ações e correu bastante bem. Num periodo curto de tempo tive um lucro de mais de 20%. Depois fechei todas as posições para comprar o meu primeiro carro, que ainda tenho. Se continuasse com as ações por muito mais tempo teria perdido mais de metade do capital inicial. Sorte de principiante, acho…

Mas este retorno aos mercados seria diferente, porque eu queria aprender todos os segredos e truques do trading. Delinei um plano em que no primeiro ano só estudaria, e simultaneamente pouparia dinheiro para investir. O que poderia correr mal? E se tudo corresse bem e de acordo com o meu plano, provavelmente conseguiria desistir do meu trabalho! Sim, concerteza…

Com estes pensamentos positivos a toldar-me o raciocínio comecei a ler livros sobre análise técnica e diferentes estilos de negociação. Também me tornei leitor assíduo de fórums e blogues. Estava realmente curioso e apaixonado pelo trading e queria absorver o máximo que pudesse. Aprendi sobre gráficos, médias móveis, RSI, MACD, linhas de suporte e resistência, longo, curto, swing, momentum e day trading, options, CDF’s, ETFs, gestão de capital e psicologia, psicologia e psicologia.

Finalmente, percebi que precisava de ser forte psicologicamente e ter um tipo de gestão de capital que me permitisse preservá-lo de mim mesmo – o que é uma grande licão, diga-se.

Decidi, também, que me posicionaria no mercado como trend-follower de longo termo e que negociaria CFDs, um derivado financeiro que nem é permitido pelo US Securities and Exchange Commission, por ser um contrato entre duas entidades e não se conseguir controlar se o adjacente é efetivamente adquirido, mas como me permitia estar alavancado num rácio de 10:1 em ações, achei que seria uma boa opção porque o capital inicial não era muito.

Em 2011, após mais de um ano a estudar e a preparar-me para negociar, Portugal entrou praticamente em bancarrota e pediu auxílio à CE/BCE/FMI para se submeter a um programa de ajuda financeira. Para mim, como trabalhador em funções públicas, foi um revés porque vi o meu rendimento encolher. Isto obrigou-me a ajustar a minhas despesas e investimento, mas também deu-me mais força para aprender mais sobre investimento. Contudo, fiquei frustrado por ver o meu salário reduzido, apesar de compreender as implicações de ser funcionário público, para mais quando é praticamente impossível de ser despedido. Mas eu sempre tinha sido um bom trabalhor, com capacidade acima da média e honesto, porque teria que ser eu a pagar por um Estado burocrático, mal gerido e, por vezes, corrupto? Não tenho, como dizem os meu amigos liberais “Se não estás contente vai e procura melhor”, mas o sector privado foi fortemente atingido e os empregos encolheram drasticamente. De qualquer forma, continuava numa posição confortável, vivendo perto do local de trabalho e capaz de acompanhar o crescimento dos meus investimentos mais preciosos, os meus filhos. Qual o interesse de ser tão bom investidor se não consigo providenciar uma educação próxima dos meus filhos? Eles são sem dúvida o meu mais valioso e importante bem. Se tentar ser o melhor pai que conseguir, proporcionar-lhe um crescimento com amor e uma boa educação parental, provavelmente no futuro terei evitado uma data de dores de cabeça e dinheiro mandado janela fora.

Desde que sou pai, lembro-me sempre:

“Prepara hoje os teus investimentos de amanhã.”.

 

 PTEN